domingo, 7 de abril de 2013

Homilia para o II Domingo da Páscoa




Caríssimos irmãos e irmãs, estamos no Segundo Domingo da Páscoa. Hoje somos convidados a meditar sobre a Fé. E daqui surgirão inúmeros caminhos. Bento XVI, afirmava que o Cristianismo é o encontro com uma pessoa, Jesus de Nazaré, não uma ideia, não uma filosofia de vida. A medida do Cristianismo deve ser sempre a pessoa de Jesus. Entretanto, onde faremos esta experiência com o Cristo? Talvez o termo experiência devesse ser mesmo substituído por vivência, então, onde teremos esta vivência da Fé Pascal? É justamente em vista desta pergunta que a liturgia de hoje se expressa com toda sua consistência.

No senso comum reside, quando se pensa em Tomé, a ideia de que ele não acreditava na ressurreição, antes, teria duvidado e a advertência de Jesus serviu como correção à sua falta de fé e desta maneira nós opomos Fé à dúvida. Neste sentido, para esta visão do Senso comum, duvidar é o mesmo que não crer!

A consequência disto é o fato de percebermos que pelos credos religiosos, o sentido da fé não comportaria espaço para dúvidas e assim, Tomé seria o exemplo do homem corrigido por Jesus, aquele que tem um tipo de fé: Se não vejo não creio. Mas é no dia a dia que vemos muitas pessoas aplicarem este conceito de forma ideológica e aqui teremos grandes problemas porque em nome da fé em Jesus não se exigiria uma resposta a determinados desafios. Esta fé não seria Católica por privar a pessoa de um debate sobre sua própria realidade. Voltemos a Tomé, chamado de Dídimo que quer dizer gêmeo. Jesus ressuscitou, apareceu para os discípulos que, deslumbrados, entre alegria e medo, testemunharam o inacreditável, porém Tomé não estava presente e, mesmo conhecendo bem seus amigos, disse que isto seria impossível, que não daria nenhum crédito ao testemunho se não pudesse constatar pessoalmente, de forma concreta que de fato, aquele personagem que aparecera aos seus amigos, era Jesus de Nazaré. O texto sagrado fala deste encontro da seguinte maneira:

Os outros discípulos lhe disseram: "Vimos o Senhor!" Mas ele lhes disse: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei" (Jo 20,25ss)

Em outra oportunidade de reunião, uma semana depois, Jesus se põe novamente entre os seus discípulos e antes mesmo que Tomé possa se pronunciar é dele a iniciativa e o convite para que toque nas feridas como demonstração de que não há nenhum tipo de oposição entre o Jesus que eles viram morrer e sepultaram o que está presente na comunidade como vivente no meio deles como a árvore do centro do Jardim, a árvore da Vida! Aqui Tomé não exige mais provas e o Senhor diz que ele não pode ser descrente deve ser fiel e a fidelidade consiste em crer sem ter visto, ou seja, crer no testemunho da comunidade.

E com esta afirmação entendemos por qual motivo na primeira leitura se fala dos prodígios dos Apóstolos e na segunda se fala da presença de um como Filho de Homem associado aos sete candelabros, ou seja, uma presença pela Palavra e a pelos sacramentos. É a comunidade de Jesus um critério para que sua presença sempre real chegue a nós. Não existe Cristianismo se este não se vincula com a comunidade. Em meio a tudo isto, como entenderemos o questionamento de Tomé? Há um aspecto positivo e que quase não se fala ao se apresentar esta cena do encontro entre Tomé e Jesus no seio da comunidade. Tomé exigiu as marcas dos pregos e no lado do Senhor como Constatação de que o ressuscitado é o mesmo que foi pregado na cruz. Neste sentido, ele nos dá um exemplo de conexão entre o antes e o depois de Jesus. Em palavras simples: não há experiência do ressuscitado se este não for o mesmo crucificado. É uma critica atualíssima aos mercadores do Sagrado que anunciam um Jesus sem cruz e uma vida sem cruzes! Assim sendo, onde está o erro de Tomé? O erro consiste em querer acreditar no que se pode comprovar.

Tomé queria constatar concretamente a ressurreição, e Jesus lhe ensina que crer está para além da ideia de constatar fatos. Provar a Ressurreição é suprimir a Liberdade humana e onde a liberdade é suprimida nem existe fé e muito menos vivência de Deus. A afirmação de Jesus é um convite para que se perceba a Ressurreição como realidade que pode até ser examinada, pesquisada, no entanto, se a Fé na Ressurreição depender de constatações para se firmar, então essa fé não é Fé! Enquanto se faz exigência materiais para que a Fé exista, não se fez ainda o encontro real com o Senhor ressuscitado. Entendemos assim que Tomé nos ajuda a fugir de uma religiosidade meramente intimista e egoísta que pode não passar de projeção do nosso ego.

E Jesus exige um apego à Fé. Sem fé é impossível uma relação genuína com Deus. Tomé não foi um incrédulo por que não acreditou na ressurreição, mas sim porque considerou que a ressurreição e outros elementos espirituais para terem sua validade precisam de comprovações físicas e materiais. Em outras palavras, Tomé entendia que só poderia crer naquilo que ele pudesse provar. E Jesus o corrige dizendo que bem aventurado é quem crer sem ter visto. Todavia, quem não vê, chegará a crer como?

Esta pergunta é respondida no final do Evangelho: “Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida nele.” Por meio da Palavra celebrada e vivida a partir da comunidade encontramos o fundamento e alimento para nossa Fé nesta presença do Senhor Ressuscitado. Esta presença converte o medo em coragem, a incredulidade em Fé. Distante da comunidade, Tomé não participa do encontro com o Ressuscitado e aqui teremos uma correção em um estilo de vida muito divulgado no qual se afirma a Fé em Jesus desvinculada do elemento comunitário, porque se o seu jeito de ser cristão não está vinculado com a comunidade de Jesus, não há vivência da Ressurreição! Pode até sem muito cheia de boa vontade, entretanto ainda não é uma Fé emancipada. Percebemos que um Cristianismo livre da comunidade é tão perigoso e egoísta quanto qualquer outra dinâmica egoísta da sociedade capitalista.

E a Comunidade para ser de fato um sinal desta Ressurreição deve ser sinal de Paz. Por três vezes o Ressuscitado falou de Paz. De reconciliação que é dom do Espírito conferido pelo Ressuscitado. O fruto do Ressuscitado é o Espírito Santo e é este mesmo Espírito que nos conceda a força do perdão. Este perdão concedido a nós mesmos e a todos é um dos sinais da Ressurreição. Onde se vive o perdão, ali está Jesus presente. Onde não há perdão, os corações permanecerão fechados por medo.

Peçamos a Ele que está no meio de nós, que sua presença nos sacramentos, na Palavra e nos irmãos seja sempre fortalecida pela prática do perdão que nos mantêm na Paz do Cristo de Deus.  

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